alegria, culpa e fúria a 40 km/h

alegria, culpa e fúria a 40 km/h


“Que p*** é essa?”, disse o motorista de um carrão num cruzamento movimentado. “Isso é um carro de verdade?”, perguntou um estudante nesta cidade universitária. “Aaaah”, disseram incontáveis pedestres.

De fato, o Fiat Topolino – um microcarro elétrico de US$ 15 mil que chega a no máximo 40 km/h – é um carro de verdade que os americanos podem comprar agora mesmo. O motorista de um Ford Fusion que me ultrapassou na faixa de conversão à esquerda de uma via com limite de 56 km/h talvez discorde.

[nota do tradutor: o Topolino está à venda no Brasil, por R$ 197 mil, mas não cumpre os pré-requisitos daqui para rodar em vias públicas; na prática, serve como um carrinho de golf com mais personalidade]

Para o mercado americano, onde ele pode rodar nas ruas, o Topolino é uma aposta da marca italiana de que famílias podem aceitar um veículo bem menor e mais lento como segundo, ou terceiro, carro.

Topolino, o “quadriciclo” elétrico da Fiat.

Com pouco mais de 450 quilos, ele leva duas pessoas e é movido por uma pequena bateria elétrica, que dá 74 km de autonomia com a carga completa.

É vendido numa única cor, verde-menta, e em duas versões. Uma tem portas, aquecedor e teto solar de vidro. A outra é a “Dolce Vita”, que troca as portas por cordas e traz uma capota de lona retrátil. Muita gente que vê o carro pergunta se ele pode mesmo circular nas ruas. (Pode.)

“Isso é totalmente sem função”, disse Alexa LaBella, 21, depois de atravessar correndo uma rua movimentada para ver de perto um Topolino, que em italiano quer dizer “ratinho”.

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Mas, até agora, a demanda superou as expectativas. A Fiat, que inicialmente enviou 300 unidades do Topolino aos EUA, diz que 30% de suas concessionárias se cadastraram para vender o carrinho.

A empresa, controlada pela Stellantis, sabe que o Topolino tem um público específico. “Ele não pisa em nada do que fazemos como empresa”, disse Andrew Waterhouse, chefe da marca Fiat nos EUA. “Não existe nada parecido.”

Para ver como o Topolino se sai como carro de recados em cidades americanas de baixa velocidade, testei uma versão com cordas no lugar das portas durante vários dias em Ann Arbor, minha cidade natal.

Carro Fiat em rua urbana.
Executivos da Fiat me avisaram para me preparar para uma enxurrada de perguntas das pessoas na rua. Foto: WSJ

Os limites de velocidade aqui geralmente ficam dentro do ambiente para o qual o veículo foi pensado. Executivos da Fiat me avisaram para me preparar para os curiosos, com uma infinidade de perguntas, e para os passantes que se posicionam para tirar fotos.

Eles estavam certos em me alertar.

Poucos minutos depois de me encontrar com Waterhouse e ver o Topolino de perto, o morador Jay Burlage passou por ali querendo saber o que era aquilo. De início, ele pareceu seguro de que o carro funcionaria para ele na cidade, mas a voz foi morrendo.

“Acho que sim? É, talvez”, disse Burlage, 54. Ele parecia mais atraído pelo modelo com portas e aquecedor.

Homem ao lado de carro Fiat.
Jim Summers soube que precisava ter o carro logo que viu. Foto: WSJ

Pouco depois, num pequeno restaurante de bairro aonde fui numa via de 48 km/h, quase todos os clientes esticaram o pescoço para olhar. Estacionar em paralelo na State Street, perto do campus da Universidade de Michigan, não foi diferente. Pedestres sacaram os celulares para fotografar, enquanto outros apontavam em êxtase e incredulidade.

Em velocidade máxima, de repente fiquei muito consciente dos painéis de plástico da carroceria do Topolino.

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Segui para casa. A cabine aberta dava uma sensação de liberdade, e o tempo estava bom. Foi divertido — la dolce vita.

Os reguladores federais criaram, no fim dos anos 1990, um caminho regulatório para esses “veículos de baixa velocidade”, que ficam entre os carrinhos de golfe e os carros tradicionais. Foi uma resposta ao que eles chamaram de interesse crescente do público em usar veículos pequenos para viagens curtas.

Veículos como o Topolino, projetados para atingir no máximo entre 32 km/h e 40 km/h, se enquadram na regra e precisam ter certos equipamentos de segurança, como faróis, setas, freio de estacionamento, retrovisor, para-brisa e cintos de segurança. Não têm airbags e não precisam passar por testes estruturais de colisão.

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‘Pisando fundo, de repente fiquei muito consciente dos painéis de plástico da carroceria do Topolino’. Foto: WSJ

Conforme usava o carro para fazer compras e resolver pendências, minha alegria inicial deu lugar à autoconsciência. Ando de bicicleta pela cidade, então estou acostumado a ficar exposto entre os outros carros, mas, em velocidade máxima, de repente fiquei muito atento aos painéis de plástico do Topolino.

Depois de comprar itens para o jantar num Trader Joe’s, voltei para casa a passo de tartaruga por uma avenida principal com limite de 56 km/h, com o pé fundo no acelerador.

O veículo tem a arrancada ágil típica dos elétricos, mas a velocidade máxima se mostrou incômoda demais para os outros: uma fila de motoristas me ultrapassou pela faixa de conversão à esquerda. Senti uma pontada de culpa por irritá-los e percebi como é gritante a diferença entre andar a 40 km/h e a 56 km/h.

A culpa passou quando entrei no drive-thru de uma farmácia e o atendente caiu na gargalhada ao ver o microcarro parado.

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Executivos da Fiat me avisaram para me preparar para uma infinidade de perguntas e para passantes que se posicionam para tirar fotos.

Jim Summers soube que precisava do carro ao vê-lo neste verão. Ryan Felton para o WSJ

A Fiat está aprendendo, à medida que avança, onde o Topolino pode pegar. Waterhouse conta que uma concessionária da região de St. Louis fez um pedido de vários carros, o que levou a Fiat a querer saber por que eles achavam que o modelo tinha chances. O dono da loja explicou que havia ali uma comunidade de aposentados descendentes de imigrantes italianos, na qual muitos moradores andavam de carrinho de golfe. Eles queriam o Topolino.

Se a Fiat encontrar mais gente como Jim Summers, o Topolino pode fazer sucesso nos EUA para além das comunidades de aposentados.

Summers, dono de uma loja de bicicletas elétricas em Ann Arbor, soube que precisava do carro depois de vê-lo neste verão. Depois de pagar um sinal, a concessionária mandou um caminhão-plataforma com o primeiro Topolino de Michigan.

“Sempre quis algo assim”, disse Summers, 58.

A casa dele funciona com energia solar, e ele dirige um Tesla Model 3. Mas Summers acha que o Topolino vai se encaixar bem.

“Odeio dirigir na cidade”, disse. “Mas isso aqui deixa tudo muito mais fácil.”

Traduzido do inglês por InvestNews

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