O atual governo dos EUA fez de tudo para frear o crescimento dos veículos elétricos (VEs). Mas, em uma reviravolta irônica, a guerra de Trump contra o Irã está impulsionando o setor em todo o mundo.
Depois que os Estados Unidos atacaram o Irã, no fim de fevereiro, e os preços do petróleo bruto dispararam, as vendas globais de veículos elétricos também aceleraram.
Um novo relatório da Ember, organização de pesquisa especializada em energia que acompanha as vendas de VEs em 56 países, constatou que 49 deles registraram novos recordes de vendas desses veículos este ano.
No Brasil, a frota de veículos eletrificados leves atingiu o marco de um milhão de unidades em circulação, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
As vendas começaram devagar, em 2012, mas aceleraram a partir do ano passado, com 500 mil unidades comercializadas nos últimos 14 meses. Atualmente, esse segmento responde por cerca de 20% das vendas totais de automóveis leves no país.
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Outros países também tiveram vendas expressivas: na Nova Zelândia, elas cresceram 165% entre março e agosto, em comparação com os seis meses anteriores. No Chile, a alta foi de 124%; na Índia, de 58%.
Em muitos países, o crescimento também foi impulsionado por novas políticas públicas. No mercado brasileiro, o governo federal foca em incentivar a produção nacional – com o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) – e o financiamento de frotas de trabalho (com o Move Brasil). Já os governos estaduais e municipais oferecem as vantagens para o consumidor final, como isenções de impostos e taxas.
MERCADO EM EXPANSÃO
Na Alemanha, medidas favoráveis aos VEs, implementadas no ano passado, já estavam em vigor quando os preços dos combustíveis começaram a subir. Em agosto, os veículos elétricos representaram 27,5% das vendas totais de carros no país, um aumento de 50% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
“Primeiro, tivemos os padrões de eficiência energética, o que basicamente significa que muitos fabricantes começaram a lançar modelos de carros elétricos mais acessíveis no início do ano. Depois, houve também um apoio mais direto às políticas favoráveis aos veículos elétricos na Alemanha”, afirma Euan Graham, analista sênior de energia da Ember.
“Tudo isso fez com que, à medida que o interesse dos consumidores pelos veículos elétricos aumentava e os preços da gasolina subiam, eles também passassem a ter mais modelos elétricos acessíveis para escolher.”

No Uruguai, que apoia o crescimento do mercado de veículos elétricos há mais de uma década, a participação desses modelos nas vendas de carros atingiu um recorde de 38% em agosto. No Vietnã, chegou a 51%. Na Austrália, alcançou 20%. A Noruega, líder histórica na adoção de veículos elétricos, atingiu 98%.
Países que demoraram mais para adotar esses veículos também estão avançando. Em 2024, os carros elétricos representavam 2% das vendas de automóveis na Índia. Em agosto deste ano, essa participação havia subido para 7%.
No total, as vendas globais de veículos elétricos cresceram 11% nos primeiros oito meses de 2026, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Excluindo os dados dos Estados Unidos e da China – onde as vendas de automóveis em geral caíram –, as vendas globais de veículos elétricos avançaram 45% este ano.
OS EUA ESTÃO FICANDO PARA TRÁS
Há uma exceção importante nessa tendência: as vendas de VEs novos caíram nos Estados Unidos. Nos primeiros nove meses de 2026, houve uma redução de 30% em relação ao mesmo período do ano passado.
Diversas mudanças nas políticas públicas contribuíram para essa queda. O governo Trump eliminou o crédito tributário para a compra de veículos elétricos e congelou o financiamento da infraestrutura de recarga. As tarifas encareceram a fabricação de baterias. Além disso, o governo revogou padrões de eficiência energética.
Em resposta, as montadoras cancelaram vários modelos elétricos no mercado norte-americano, do Ford F-150 Lightning ao Nissan Ariya. Quando os preços da gasolina subiram este ano, os consumidores passaram a ter menos opções.

A Ember acompanha as vendas de veículos elétricos em todos os mercados para os quais existem dados disponíveis. Em 49 dos 56 países monitorados, a participação dos veículos elétricos já supera a dos Estados Unidos. Quinze países, incluindo Índia e Brasil, ultrapassaram os EUA este ano.
A enorme indústria chinesa de veículos elétricos, que hoje é uma grande exportadora, está se beneficiando desse cenário. As indústrias nacionais de veículos elétricos também estão crescendo em outros países, incluindo Vietnã e Índia.
O relatório da Ember detalha os benefícios que os países com forte adoção de veículos elétricos obtiveram durante a guerra contra o Irã. A China, por exemplo, conseguiu reduzir em US$ 14 bilhões suas importações de petróleo bruto graças à sua frota de carros elétricos. Esse valor não inclui os benefícios adicionais proporcionados pelo uso de caminhões, ônibus e outros veículos elétricos.
Em escala global, o relatório estima que os países importadores de petróleo conseguiram substituir o equivalente a 200 milhões de barris de petróleo bruto desde o início da guerra, evitando gastos de aproximadamente US$ 20 bilhões.
Enquanto isso, as montadoras norte-americanas foram obrigadas a contabilizar bilhões de dólares em perdas relacionadas a seus investimentos em veículos elétricos. Com o restante do mundo seguindo uma direção diferente, elas podem acabar se tornando obsoletas.
Com informações da redação da Fast Company Brasil
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