O FUTURO DO AUTOMÓVEL TALVEZ NÃO SEJA SOBRE O AUTOMÓVEL – Autoentusiastas

Arte: autor por meio de  IA;


 





 

Durante mais de um século aprendemos a olhar o futuro do automóvel observando o próprio automóvel.

Elementos como motor, câmbio, potência, consumo, segurança, design eram a referência da indústria automobilística. Depois vieram eletrificação, conectividade, Adas, software e inteligência artificial que dão o tom nos dias atuais.

Continuamos olhando para o carro e muito provavelmente este seja o problema, pois a próxima grande transformação da mobilidade pode não acontecer propriamente dentro do automóvel, mas na arquitetura que passará a conectar pessoas, veículos, energia, dados, infraestrutura e cidades.

O carro continuará existindo. Provavelmente continuará sendo desejado, comprado, financiado, alugado e trocado, mas a decisão sobre como ele será utilizado dependerá cada vez menos apenas de quem está ao volante.

Pense numa viagem urbana de uma forma bem simplificada: pessoa, carro e destino.

Amanhã talvez seja diferente: pessoa, agente de inteligência artificial, sistema de mobilidade, infraestrutura, veículo, energia e destino.

Parece algum exagero? Talvez, mas basta olhar com atenção para perceber que boa parte destes elementos já existem de forma isolada.

Semáforos inteligentes, gestão dinâmica de tráfego, sensores, estacionamento conectado, gêmeos digitais, processamento local, cobrança variável, veículos definidos por software e sistemas capazes de analisar milhões de informações em tempo real já começam a formar peças de um quebra-cabeça muito maior. A cidade deixa de ser apenas o lugar onde os carros circulam e passa a ter uma participação nas decisões sobre o fluxo da mobilidade.

É uma mudança conceitual gigante.

Durante décadas, a indústria automobilística vendeu fundamentalmente uma máquina. Agora passa a comercializar uma plataforma.

O chamado Software-Defined Vehicle (veículo definido por software) ajuda a compreender bem esta transformação. Se uma parcela crescente da experiência do automóvel puder ser atualizada por software, esta característica muda a forma de envelhecimento do veículo. Hoje um carro usado é avaliado por idade, quilometragem, conservação, manutenção e reputação mecânica. No futuro potencialmente acrescentaremos versão de software, capacidade computacional, estado da bateria, possibilidade de atualização e serviços digitais ainda com disponibilidade funcional.

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Um automóvel de cinco anos poderá estar mecanicamente perfeito e tecnologicamente ultrapassado. E, o contrário também é válido: o modelo poderá ganhar funções que não possuía quando saiu da fábrica.

Isso mexe com tudo. Valor residual, leasing, seguro, financiamento, manutenção, seminovos, fidelização, serviços de pós-venda e até o momento ideal de troca.

Há ainda outra discussão frequentemente simplificada: autonomia.

É comum imaginarmos um futuro em que todos os veículos teriam direção autônoma, mas a realidade provavelmente não será assim.

A autonomia tende a avançar em camadas. Primeiro nos ambientes onde tecnicamente funciona e economicamente faz sentido como em corredores determinados, logística, robotáxis, operações comerciais e em trajetos previsíveis.

Uma tecnologia não precisa funcionar em todos os lugares para transformar um mercado. É necessário funcionar primeiro onde transfere maior valor.

E este mesmo raciocínio vale para o processo da eletrificação.

O debate brasileiro frequentemente empobrece quando fica reduzido a uma disputa vazia entre combustão e elétrico.

O caminho pela nossa terra brasilis provavelmente será mais complexo, o que torna a jornada muito mais interessante. Álcool, híbridos, PHEVs, MHEVs, elétricos, biocombustíveis e diferentes formas de propriedade poderão coexistir durante muito tempo e o Brasil possui dimensões continentais, infraestrutura desigual, mercado de usados gigantesco, financiamento relevante, juros extorsivos e forte presença de frotas e locadoras.

Copiar a China, a Europa, os Estados Unidos ou qualquer outro mercado será menos inteligente do que encontrar a melhor solução para o Brasil.

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E quer somar mais um elemento muito pouco discutido? Energia.

Um veículo elétrico não é apenas um automóvel que deixou de consumir combustível líquido. Ele passa também a ser uma grande bateria circulando pela cidade.

Se puder escolher quando carregar, armazenar energia e, eventualmente, devolver parte dela à rede, passa a integrar outro negócio completamente diferente. Neste cenário, estacionamentos, condomínios, empresas e shopping centers tendem a deixar de ser simplesmente lugares onde o automóvel fica parado.

O tempo parado também pode adquirir valor energético.

E, com todos esses elementos começando a se misturar, surge uma variável invisível cuja importância tende a crescer, a confiança.

Olha que interessante como são os novos dias. Quanto mais tecnologia entra na mobilidade, maior é a parcela de decisões que começamos a transferir para algoritmos e sistemas que precisam conquistar nossa confiança.

Você deixaria uma inteligência artificial definir sua rota?

Aceitaria que seu automóvel recebesse uma atualização enquanto estivesse parado?

Confiaria num sistema que determinasse dinamicamente quanto você deve pagar para circular?

Aceitaria compartilhar permanentemente seus dados de deslocamento?

Confiaria num veículo que toma uma decisão crítica por você?

A tecnologia já tornou muitas dessas situações possíveis. Isso não significa que consumidores, cidades, legislação e sociedade estejam necessariamente preparados para aceitá-las da mesma forma.

Por tal motivo não gosto muito das tradicionais listas de “dez tendências para 2030” ou das “dez tendências para a próxima década”. é uma discussão rasa e, convenhamos, o futuro não respeita um PowerPoint.

Prefiro observar os sinais. Um sinal isolado pode não significar nada. Mas quando diferentes sinais começam a convergir, surge algo mais importante: tração. E quando essa tração encontra um gatilho (tecnológico, regulatório, econômico ou comportamental) pode surgir um ponto de inflexão. É assim que uma semente evolui para sinal, tendência, tração, ponto de inflexão, mainstream (dominância) e, eventualmente, ruptura.

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Talvez este seja o caminho para se observar a indústria daqui para frente.

A lógica não é entender exatamente como será o mundo no futuro, mas identificar quais elementos deste futuro já começaram a dar sinais no presente.

E de forma adicional, questionar como esta nova tendência poderia dar errado pois olhar para o futuro não significa escolher uma previsão e torcer para ela acontecer, mas significa construir hipóteses, testar evidências, procurar contra evidências e reconhecer quando o mundo começa a se mover numa outra direção.

No fim, talvez estejamos fazendo a pergunta errada sobre o futuro do automóvel.

Talvez o futuro não seja sobre qual carro vamos comprar.

Talvez seja sobre como vamos nos mover.

E, principalmente, quem vai decidir como nos moveremos?

O Veículo.

A IA.

A Energia.

A Cidade.

A Infraestrutura.

Os Dados.

As Finanças.

O Comportamento.

Ou todos eles ao mesmo tempo pois tudo começa a convergir?

O futuro do automóvel pode continuar tendo quatro rodas, mas provavelmente o que moverá essas quatro rodas estará, cada vez mais, fora delas.

Por Milad Kalume Neto, com colaboração de Pablo Moura.

Pablo Moura é executivo da indústria automobilística, especialista em mobilidade, estratégia comercial e transformação de negócios.

MKN

A coluna “Visão Estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

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