Incêndios provocados por carros elétricos a carregar são raros, mas não são inéditos e, diz quem já passou por isso, extingui-los é mais difícil do que num carro a combustão. O barato pode sair muito caro e a solução não pode passar por carregar numa tomada doméstica comum
Dois anos e meio depois, Mário Conde, comandante dos bombeiros da Amadora, ainda se lembra do incêndio numa oficina que funcionava na garagem de um prédio de três andares da rua Basílio Teles, na Damaia. Foi a 6 de dezembro de 2023 e estavam em plena hora de almoço quando soou o alarme. “A oficina ficou totalmente destruída!”, resume o comandante Mário Conde, em conversa com a CNN Portugal.
O comandante lembra-se bem do caso, porque o fogo teve ignição num carro elétrico que estava a carregar. Nas fotografias da altura é bem visível o ponto onde começou o incêndio e o estrago que provocou. E lembra-se bem do caso porque conhece as dificuldades acrescidas de extinguir um fogo numa bateria de lítio.
“Se me perguntar se os incêndios acontecem só nos carros elétricos, respondo-lhe logo que não. Também acontece nos carros a combustão, claro. O problema é que o risco é sempre mais elevado num elétrico, porque extinguir um foco de incêndio numa bateria de lítio é muito complicado. Os poucos equipamentos que existem no mercado são extremamente caros e os bombeiros não têm capacidade financeira para os adquirirem. A extinção inicial não é difícil. É feita com água. O problema é que estas baterias depois reacendem-se espontaneamente passadas umas horas. Por isso, têm de ser transportadas para um lugar onde ficam dentro de água durante uma ou duas semanas, até o perigo de reacendimento passar”, explica.
Desde “o início dos elétricos”, garante, os bombeiros reclamam formação adequada para enfrentar incêndios provocados por veículos elétricos. Mas o que têm aprendido é sempre por força empírica. “O que nós precisávamos era que dessem alguma formação aos bombeiros. Mas, mesmo quando pedimos aos concessionários, eles não nos sabem informar, porque eles próprios também não sabem como se faz”, reclama.
Com o crescimento da mobilidade elétrica, as situações de risco têm aumentado na mesma proporção e não é só por causa dos carros elétricos: “Ainda há dias tivemos um incêndio aqui na Amadora, no Edifício Oeiras. O caso de uma trotineta elétrica que se incendiou quando estava a carregar dentro de casa. A habitação ficou completamente destruída. É um prédio enorme de 16 andares, com 11 frações por andar. Felizmente, conseguimos conter o incêndio naquela fração e os danos não se propagaram a outras”, recorda.
Números da mobilidade elétrica
De acordo com um estudo do ACP (Automóvel Club de Portugal) “a mobilidade elétrica entrou numa fase de aceleração”, sobretudo no último ano. “A penetração dos veículos elétricos atingiu 9% dos condutores, um salto expressivo de 5,5 pontos percentuais face a 2025”, pode ler-se no Barómetro da Mobilidade Elétrica 2026, divulgado em março.
As preocupações ambientais, os custos de utilização mais baixos e a expectativa de evolução tecnológica são as principais razões invocadas para o aumento do interesse nos veículos elétricos. Nos últimos meses, sobretudo depois do início da guerra no Irão, também o preço dos combustíveis se tornou num fator com muito peso nesta ponderação.
No espaço de um ano e de acordo com o barómetro do ACP, aumentou em 22 pontos percentuais o número de condutores que admitem predisposição para comprar um carro 100% elétrico. Mais de metade (55%) considera agora provável adquirir um veículo totalmente elétrico. Isto apesar de o preço dos veículos ainda ser um entrave, da perceção da autonomia como limitada, do tempo de carregamento ainda longo e das poucas oficinas especializadas.
Mas estará o país preparado para este crescimento? Também o barómetro do ACP dá respostas claras: “Persistem desafios estruturais. A infraestrutura ainda é desigual, com maior dificuldade de carregamento nas zonas rurais e no Alentejo”. E o barómetro refere-se só aos carregamentos em postes públicos.
Os riscos de ter um carro a carregar em casa
Mário Conde garante que “as instalações elétricas da maioria das casas não estão preparadas para carregamentos destes, com uma voltagem desta envergadura”. “Nos prédios antigos ainda pior, por causa da cablagem antiga, que tem uma menor resistência. E não é com uma extensão pendurada na varanda para o passeio que se carrega um carro elétrico”, sublinha o comandante dos bombeiros da Amadora, que admite ver “muitos carregamentos a serem feitos assim”.
E não é mesmo assim que se deve carregar um carro elétrico. Até porque não é sequer legal. “Não pode haver cabos ou extensões a passar pelo passeio para carregamentos. Não é legal e não é aconselhável. Normalmente essas tomadas não são seguras. Já todos fomos a hotéis e vimos a indicação de que as tomadas das casas de banho só podem ser usadas para ligar um secador ou uma máquina de barbear. E não podem ser ligadas para outras coisas porquê? Porque não suportam mais do que isso. Colocar um carro elétrico a carregar numa tomada não dedicada não é seguro”, reforça Elsa Serra, diretora do ACP Autos.
Sofia Lima, jurista da DECO ProTeste reitera: “Não é permitido, porque se pode estar a pôr em risco de colocar em risco a segurança do próprio prédio. Se o cabo passar na via pública ou nas partes comuns do prédio, não é legal”. Ora, as fachadas ou as paredes laterais e traseiras dos prédios são consideradas partes comuns.
Além disso, o barato pode sair muito caro. No caso de haver um incêndio provocado pelo carregamento elétrico de um veículo em que a instalação não cumpra as normas legais, a seguradora pode “levantar questões” ou recusar-se mesmo a pagar.
Elsa Serra alerta que, mesmo para instalar uma tomada dedicada ao carregamento de um veículo elétrico ou uma wallbox, há cuidados de que não se pode prescindir. “Em primeiro lugar, é preciso chamar um eletricista certificado (não um curioso!), que verifique a instalação elétrica da casa. Que veja se os cabos são os suficientes e estão em estado de aguentar o carregamento de um carro. Normalmente, um eletricista certificado até dá alguns conselhos sobre a potência contratada ideal, sem comprometer o uso de eletrodomésticos que todos temos em casa”, sublinha Elsa Serra.
“Se estivermos a falar de um prédio, é igualmente imprescindível que um eletricista certificado vá lá e verifique se é possível instalar uma wallbox, sem comprometer a estrutura toda do prédio. Não queremos que, cada vez que um proprietário de um carro elétrico ponha o veículo a carregar, o prédio fique sem elevador ou que fique alguém preso num elevador porque o quadro vai abaixo”, acrescenta.
Por isso, destaca, em prédios, é importante instalar wallboxs com balanceadores de carga dinâmicos. O balanceador de carga dinâmico é um dispositivo que permite controlar, a cada momento, o carregamento do veículo consoante o consumo de energia que está a ser feito no resto do edifício: por exemplo, em horas de maior consumo de energia no prédio, o balanceador de carga reduz a energia afeta ao carregamento do veículo. “Mesmo numa moradia, é preferível ter uma walbox com balanceador de carga. Ninguém quer que o forno pare de funcionar ou o frigorífico se desligue cada vez que colocamos o carro a carregar”, diz.
“Instalar uma tomada dedicada ou uma wallbox não pode ser uma decisão que seja tomada sem ajuda técnica. Seja para proteção da viatura, seja para proteção da fração e de quem lá habita, temos de tomar as medidas preventivas e adequadas para o que estamos a fazer. Está em causa a segurança de todos!”, reforça Elsa Serra.
A (falta de) aposta na segurança
Um estudo de agosto de 2024, elaborado pela DECO (Associação de Defesa do Consumidor) e pela SGS, concluiu que mais de metade das instalações de wallboxs não cumpre os requisitos de instalação. Os técnicos que elaboraram o estudo visitaram 21 habitações com wallbox instalada e verificaram que só 43% das instalações cumpriam as recomendações do fabricante e a legislação de segurança elétrica. Entre os problemas mais detetados no teste estiveram a não utilização de equipamentos de proteção recomendados e a não separação do circuito da wallbox das restantes alimentações do quadro elétrico.
“Isso não significa estarmos perante um perigo iminente”, sublinham os técnicos, garantindo que “as instalações elétricas em Portugal são tipicamente bem executadas”.
“Não é normal encontrar erros de execução por utilização de equipamentos incorretos. O fenómeno que se observou em quase metade das casas visitadas deve-se, provavelmente, à falta de conhecimento e formação das empresas mais pequenas que se especializaram em instalações elétricas”, frisam os técnicos responsáveis pelo teste, alertando que “os riscos de sobrecarga da instalação elétrica em casa ou de eletrocussão existem” e sugerindo “cautela e manutenção”.
Carregamentos elétricos e condomínios
Por lei, um condomínio não pode opor-se arbitrariamente à instalação de um ponto de carregamento para veículos elétricos pedida por um dos condóminos. Ainda assim, há situações previstas na legislação que podem justificar essa recusa. “Se o edifício já disponibilizar um ponto de carregamento, se o próprio condomínio decidir avançar com a obra no prazo de 90 dias, se houver riscos de segurança, se obstruir a circulação nas partes comuns e se não for assegurado o regime de acessibilidade, o condomínio pode legalmente opor-se”, sublinha Sofia Lima, jurista da DECO ProTeste.
A jurista avança que a DECO tem recebido alguns pedidos de mediação, “mas sobretudo alguns pedidos de esclarecimento” sobre como se deve proceder. Assim, Sofia Lima resume os passos a dar se quiser instalar um ponto de carregamento no seu lugar de garagem ou na garagem fechada do seu prédio.
“Informe, por escrito, o condomínio com a antecedência de 30 dias da data pretendida da intenção de instalar um ponto de carregamento de veículo elétrico, com ligação ao quadro de serviços comuns na garagem do edifício”, explica, sublinhando que a instalação tem sempre de ser feita por uma entidade certificada.
O condomínio tem 15 dias para se pronunciar, igualmente por escrito. “Se a decisão for negativa, a mesma deve ser sempre fundamentada”, diz Sofia Lima.
Os custos da instalação e do consumo de energia devem sempre ser imputados a quem vai beneficiar do ponto de carregamento. Num condomínio com pontos de carregamento comuns para utilização partilhada, cada utilizador é responsável pelos seus consumos de energia.
Os passos a dar quando se compra um carro elétrico
A responsável do ACP assume que a procura por aconselhamento em matéria de mobilidade elétrica tem crescido. Por isso, tem a lição estudada em termos de passos a dar quando se pensa em adquirir um veículo elétrico.
“Em primeiro lugar, tem de se fazer um bom planeamento. Ver qual é a viatura que pretende adquirir, verificar quais são as características da sua habitação, qual é potência contratada que tem e qual é potência que tem de contratar e que custos isso acarreta. Depois, é importante avaliar as necessidades de carregamento – se pode, por exemplo, carregar só durante a noite, para aproveitar os benefícios da tarifa bi-horária. Em terceiro lugar, verificar as diferentes wallboxs que existem no mercado e saber se os diferentes fornecedores das wallbosx estão realmente certificados e têm um eletricista que verifique se a instalação elétrica da casa é adequada”, resume.
Elsa Serra reforça um último conselho: “Não comprem uma wallbox qualquer para a instalarem livremente, sem aconselhamento técnico”.
Olá, sou Romero Bachman, fundador e autor principal do Curiositando. Minha jornada começou com a ideia de criar um espaço online dedicado a abordar as questões mais curiosas do nosso cotidiano e que podem impactar em nossas vidas.






